Sensibilidade e Realidade

sensibilidade e realidade

Sensibilidade remete a emoções. Estar vulnerável a emoções. Ser sensível pode dar a ideia de fragilidade, de cuidado, ou também de sutileza, como a beleza interior de uma singela flor que se abre pela manhã. Atordoados com a ignorância da nossa mente, vivemos nos relacionando sob a perspectiva de nomes e formas e nos identificamos com objetos e pessoas, depositando a nossa felicidade fora de nós mesmos. Na caminhada espiritual, no entanto, percebemos que a profundidade da realidade vai muito além da prisão a que nos submetemos com os objetos do mundo material, fazendo surgir uma questão contraditória entre realidade e sensibilidade no desenvolvimento espiritual. Eu me vejo livre e tenho que lidar com os meus sentimentos. Como conseguir isso?

As emoções acontecem quando ocorre o encontro da mente e do corpo. É a reação do corpo à nossa mente; um reflexo da mente no corpo. Por exemplo, quando alguém age com agressividade com a gente e nos xinga, provoca na gente uma vontade de reagir da mesma forma, revidando o xingamento. Um pensamento agressivo vem à nossa mente e vai acumulando, aos poucos, uma energia no corpo – a raiva. Então, nos deixamos levar pelas emoções e ficamos sensíveis às emoções que surgem no nosso corpo/mente.

Estar vulnerável às emoções é oscilar junto com elas. Porém, nessa caminhada espiritual vamos observando que oscilar junto com as emoções tem um preço. Se a nossa postura diante de cada decepção for a de total identificação com o objeto, vamos viver num mar bem agitado. Imagina a nossa mente como um mar. No mar tem ondas. As ondas estão lá, mas se eu tentar acompanhá-las, vou viver oscilando o tempo todo. A maré não para. Quando o mar estiver bem agitado com muitas ondas, se eu me deixar levar pela emoção, que nesse caso são as ondas, viverei em altos e baixos. Nesse sobe e desce da maré, podemos tomar um belo de um caldo, causando traumas e dores que podem ser lembradas para sempre.

Essa identificação com o objeto está relacionada com o que consideramos realidade. O que é real? O que não é real? O que é ilusão? Sabemos que não existe a separação entre eu e você, entre você e o todo. Tudo é uma coisa só. A visão dual em que nossa mente está condicionada não existe e faz com que fiquemos aprisionados nesse mundo de nomes e formas, colocando o eu separado do todo. Porém, a mente está tão condicionada, que colocar em prática essa visão absoluta é muito difícil; exige muito esforço! Em geral, em nosso dia-a-dia nos relacionamos com as pessoas e com os objetos de forma relativa, sob a visão dual, separando o eu de todo o restante. E sob essa perspectiva, a nossa relação com as coisas passa a ser de gosto e aversão, de apego. E esse apego causa sofrimento.

O fato é que ser sensível demais a essa realidade fará com que nossa vida seja como tentar acompanhar o movimento das ondas em um mar bem agitado. Teremos que lidar com muitas oscilações. Por outro lado, estamos nos relacionando num mundo de nomes e formas e de alguma maneira a nossa mente precisa desses nomes e formas para viver e entrar em contato com as pessoas e o mundo. E viver de forma a desconsiderar as pessoas e suas emoções, de forma fria e insensível, também não resolve. Senão era muito fácil! Bastava ir para as montanhas e ficar lá, isolado do mundo e de todos, longe da mãe, do chefe, da sogra, meditando e olhando os pássaros. Mas não é isso.

Então, de alguma forma é importante no caminho espiritual que as coisas sejam um pouco ponderadas. Senão vamos viver como uma porta, sem conseguir nos relacionar com as pessoas, sem sentir nada por ninguém, sem conseguir ajudar os outros. Porque afinal de contas, tudo é uma coisa só, a divisão entre eu e você não existe, minha mente é ignorante e os sentimentos não tem fundamento! Viver desse jeito não leva a lugar nenhum.

A sensibilidade é muito importante no desenvolvimento espiritual. Imagine uma pessoa que está em dor. Imagine, por exemplo, que o animal de estimação da sua melhor amiga morreu e ela amava muito o cachorrinho. Então, ela te liga procurando ouvir alguma palavra de conforto e a sua reação é fria e insensível. Você acha aquilo uma besteira e fala pra ela que essa vida que estamos vivendo aqui é ilusão, que isso não existe e que o cachorrinho dela é apenas uma extensão da mente e do corpo dela. Você diz que é tudo uma coisa só, que isso não existe, que a mente dela está embebida na ignorância! Nossa, eu aposto que sua amiga vai ficar muito chateada e por um tempo não vai querer falar com você. A sensibilidade é fundamental para lidar com as emoções, lidar com as pessoas e com tudo o que acontece a nossa volta.

Portanto, a sensibilidade e a realidade dentro do caminho espiritual precisam ser entendidas com muito carinho. Lidar de uma forma saudável, sustentável com o mundo e com as nossas emoções é fundamental. Entender o lilá (jogo) da vida. E Vedanta nos ajuda nesse processo, uma vez que a mente está muito identificada com objetos, nomes e formas. A nossa postura diante desse mundo de ilusão lembra a figura do ator em uma peça. Numa atuação, o ator está interpretando papéis, mas ele não é o papel. As emoções são do personagem, não dele. Ele vive o papel e as emoções consciente de que ele não é aquilo. Durante a peça é importante ele viver todas as emoções do personagem, porém ele tem a consciência de que aquilo não é a realidade.

A linha da dosagem de sensibilidade e realidade é muito tênue. Encontro-me diariamente em situações em que me deparo com essa contradição de ser um ser humano livre e de ter a sutileza em lidar com emoções para poder me relacionar nesse mundo de nomes e formas. Uma vez, era aula de hatha yoga bem cedinho e apenas um aluno apareceu. Começamos a conversar, como de costume. No entanto, nesse dia percebi que ele estava em dor e precisava desabafar. Falou de seus problemas e como aquilo estava perturbando a cabeça dele, deixando sua mente confusa e agitada. Um dos problemas era na relação conjugal, que estava bastante comprometida naquele momento. Embebido pela ignorância de sua mente, ele não conseguia perceber que nada daquilo tinha real importância e que tudo ia ficar bem. Tudo na verdade já estava bem e caminhava dentro de uma ordem. E tudo aquilo pelo que estava passando e o que estava sentindo era fruto da ignorância que nós seres humanos temos em nos apegarmos a objetos materiais e limitados. Ficamos ali conversando por uma hora, escutei-o com carinho e procurei colocar palavras que de certa forma tinham o embasamento espiritual mas que foram capazes de aconchegar seu coração. Agir de forma “prática” e seca provavelmente teria causado maior dor naquele momento e de nada adiantaria. É importante estar atento e conectado para entender as emoções e conseguir viver no mundo se relacionando com as pessoas de forma saudável. E, assim, o entendimento do ser humano livre que já somos é fundamental para que a gente consiga colocar a sensibilidade necessária dentro dos relacionamentos com o mundo sem desconectar da realidade maior.

Harih om!

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Redondilhando o Samsara

cavalo

Vento soprando os cabelos

de quem, com as rédeas nas mãos,

cego, sobre seu cavalo,

sobrevive na ilusão.

.

Encantado com o poder

e embriagado pelo ópio,

não vê que a felicidade

reside mesmo em si próprio.

Para continuar lendo mais poesias como essa vá para Vedanta

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Força maior

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Em geral, qualquer coisa que a gente faça na vida exige algumas gotas de súor, colheres de sopa de esforço e muita, muita dedicação. Apesar de já termos escutado, por vezes até vivenciado, alguma situação em que as coisas aconteceram de forma fácil e rápida, na maioria dos casos não é o que ocorre. Precisamos ter coragem e força de vontade para se debruçar sobre uma situação. Uma força interna precisa ser criada e é aí que surge o momento da verdadeira entrega; o  momento de largar tudo, todas as nossas identidades.

No estudo de Vedanta ou Yoga não é diferente. Uma vez criada a conexão com a tradição, é preciso ter coragem, porque o aluno vai ser colocado diante de diversas situações para preparar a mente e muitos obstáculos irão surgir. Nesse momento, a mente tem que ter a capacidade de superá-los e de não entrar em colapso cada vez que um obstáculo aparecer. O estudo de Vedanta e Yoga coloca você de frente pra você mesmo e requer coragem para se ver por si e também através dos outros. E nessa caminhada, a disciplina é fundamental para criar a força de vontade necessária para conseguir o que quiser.

Eu tinha acabado de voltar da Alemanha, onde passei quase um ano fazendo o projeto final da faculdade. Foi uma experiência incrível e quando voltei estava determinada a fazer o mestrado. Logo depois que me inscrevi no mestrado, apareceu uma oportunidade de emprego que aceitei, colocando como condição que a empresa me liberasse algumas horas na semana pras aulas e para reuniões com o orientador. Apesar das “caras feias” que recebi, a resposta foi positiva e as coisas foram caminhando. Não tive descanso. Os estudos iam até 1 hora da manha durante a semana e se estendiam nos finais de semana, quando o despertador não deixava eu passar de 8h, no máximo, 9h. Isso durou três anos. Não foi nada fácil. Foi preciso ter muita força de vontade para não largar tudo, jogar tudo pro alto e desistir. Principalmente nos momentos em que conversava com o gerente da empresa, o qual deixava claro que era contra eu fazer o mestrado, dizendo que aquilo ali não ia acrescentar em nada pra empresa e que eles não estavam interessados. Além disso, na universidade eu também sofria alguma discriminação, pois era vista como “a que trabalhava e não se dedicava ao mestrado”, “de fora” do grupo, como se só estivesse ali para conseguir um título e aumentar meu salário na empresa.

As dificuldades não paravam por ai. As disciplinas eram muito difíceis e, como eu nao ficava na universidade, tinha que dar um jeito de estudar sozinha, sem ajuda de professor, monitor e de colegas de turma. No entanto, o momento mais difícil ainda estava por vir. Achava que as disciplinas e o desenvolvimento do trabalho seriam desafiadores e que escrever seria apenas colocar o que ja tinha feito em forma de palavras, no papel. Ledo engano! Foi a parte mais tensa do mestrado. Não virava noite, mas ia até altas horas da madrugada. Os finais de semana tinham apenas um foco e a mente não tinha descanso. Desistir era fácil, tinha muitos motivos. Eu vi muita gente desistindo. Principalmente os que trabalhavam e estudavam ao mesmo tempo, como eu. Porém, confesso que desistir não passava pela minha cabeça. Porque eu tinha certeza do que queria, nao tinha dúvida. Tinha disciplina e, com isso, criei força de vontade que fez com que eu trabalhasse no que eu queria. Foi necesário muito esforço, muita dedicação, horas de estudo, finais de semana no laboratório, dizer não pros amigos e, muitas vezes, até para a família.

Em qualquer coisa que a gente faça na vida é preciso ter coragem. Não sou melhor nem pior do que ninguém, essa não é a questão aqui. Mas essa passagem da minha vida foi um exemplo de virya, de coragem, sem a qual não fazemos nada. Ter coragem não significa que não teremos medo. O medo na verdade é importante para criar a força interna; o medo é a maior força motivadora para desenvolver virya. E é essa coragem, essa força de vontade, que vai fazer com que a gente largue todas as nossas identidades e siga nosso caminho, e não o dos outros.

Esse texto sobre Vedanta foi escrito por Alessandra Monteiro

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Significado do mantra Asato Ma Sadgamaya

asato ma sadgamaya
tamaso ma jyotirgamaya
mrtyor ma amrtam gamaya

(Brhadaranyaka Upanishad — I.iii.28)

Lead me from the asat to the sat.
Lead me from darkness to light.
Lead me from death to immortality.

Esse mantra está contido no Brhadaranyaka Upanishad e consiste numa oração pura. A natureza limitada do ser humano é reconhecida e seu sincero grito por ajuda em transcender . Não é uma oração pelas coisas mundanas; não é uma oração por comida, saúde, abrigo, riqueza, sucesso, fama, glória ou até mesmo pelo céu. Aquele que recita esses três versos se dá conta de que essas coisas do mundo são vazias, cheias de dor e, mesmo em abundância, irão deixá-lo para sempre dependente.

A essência desse mantra é:

“Ó, Guru, me ajude a me libertar de meus equívocos diversos sobre mim mesmo, o universo e Deus e me abençoe com conhecimento verdadeiro.”

O primeiro verso —asato ma sadgamaya— significa “guie-me de asat para sat“, em que sat, assim como muitas palavras em sânscrito, possui muitos significados e não apenas muitos deles são aplicados neste mantra como a combinação deles é fundamental para o entendimento profundo de seu significado. Combinando todos os significados dessa palavra, sat inclui existência, realidade, verdade. Da mesma forma, o significado de asat inclui não existência, não realidade e não verdade. Segundo a Tradição Védica, mais especificamente a visão não dual de Vedanta (ou Advaita Vedanta) apresenta o conceito de “verdade” de uma forma mais profunda. Para algo ser considerado uma verdade, tem que ser verdade nos três periodos de tempo: passado, presente e futuro. Indo ainda mais profundo, Advaita Vedanta afirma que se alguma coisa não existe em todos esses tempos, ela não existe de verdade. Portanto, verdade, existência e realidade são um e o mesmo. Essa realidade, segundo o Vedanta, é o que chamamos de Deus.

O universo e suas coisas estão em constante estado de mudança. Os planetas estão em constante movimento; as estações do ano estão sempre mudando; cientificamente, podemos perceber que nossos corpos (e as celulas dele) nascem, se formam, crescem, se desenvolvem, se deterioram e morrem. No nivel das emoções, ficamos oscilando entre felicidade, tristeza e raiva. Até mesmo nossas convicções intelectuais raramente ficam estáveis por muito tempo. Portanto, de acordo com o Vedanta, nãso podemos chamar esse mundo de real. Ele não é, em última análise, real. Assim, ele não existe. Parece real, mas não é. Isso se chama asat.

O segundo verso – tamaso ma jyotirgamaya – significa “guie-me da escuridão para a luz”. Quando o Vedas se refere a escuridão e luz ele quer dizer ignorância e conhecimento, respectivamente. Da mesma forma que a luz é a única forma de acabar com a escuridão, o conhecimento é a única forma de acabar com a ignorância, a qual obscurece o verdadeiro conhecimento. Este conhecimento verdadeiro falado aqui é o conhecimento da verdadeira natureza do ser.

O terceiro e último verso – mrtyor ma amrtam gamaya – significa “guie-me da morte para a imortalidade.” Este mantra não deve ser considerado como uma oração para viver eternamente no céu ou na terra, mas como uma prece ao Guru por ajuda na percepção e entendimento da verdade que “Eu nunca nasci, nem jamais posso morrer como eu não sou o corpo, a mente e o intelecto, mas a consciência eterna, bem-aventurada que serve como o substrato de toda a criação.”

A leitura e entoação desses mantras nos remetem ao fato de que o atma, ou o “ser próprio”,  “a própria alma” não é algo distante de forma a termos que fazer uma peregrinação para alcançá-lo; não precisamos transformar nós mesmos em nós mesmos, nem precisamos viajar para isso. Nós somos isso. A jornada é uma jornada de conhecimento do que nós achamos que somos ao que nós realmente somos. O que o mantra realmente quer dizer é: “guie-me para o entendimento que eu não sou esse corpo, mente e intelecto limitados, mas eu sou, fui e sempre serei eterno, absoluto, felicidade, consciência.”

Harih om!

Trecho retirado dos arquivos de amrita.org

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Dharma ou Dhrama?

escolhas

Vedanta nos coloca que existem 4 grandes buscas na vida. Daí você pensa: “Só 4!?!?!” Isso mesmo! E quando você pára para ler o que e como a tradição Védica apresenta essas buscas (ou objetivos), as coisas vão ficando bem mais claras e o entendimento sobre o “eu” exposto em Vedanta começa a ser explorado. Artha, Kama, Dharma e Moksha, que traduzidos são segurança, prazer, aquilo que deve ser feito por mim e liberdade, são as 4 grandes buscas do ser humano na vida. Com o estudo a fundo de cada busca, pode-se perceber que elas estão totalmente interligadas e possuem uma relação de interdependência. No meio dessas buscas, a grande virada espiritual acontece com a descoberta do dharma. O dharma é uma busca muito importante, pois ela dá humildade pra gente, ela iguala todo mundo.

A busca pela segurança, assim como a busca por prazeres, parece que nascem com a gente. Desde pequena escutava para ter cuidado ao atravessar a rua, para não andar com pessoas que não conhecesse e também para evitar determinados lugares perigosos. Da mesma forma, a todo momento, somos invadidos por estímulos para comprar o tênis da moda, para comprar o novo modelo do iphone ou para viajar nas férias para um lugar paradisíaco. E minha infância e adolescência não foram diferentes. Natural. Os pais querem te dar proteção e o sistema capitalista quer que você entre na roda e movimente a economia. Vivia nessa escuridão ilusória “feliz”. No entanto, essa felicidade também era ilusória.

Resolver ser feliz pela busca dos prazeres não da certo e quando nossas ações são voltadas pro prazer, só traz decepção. E, de decepção em decepção, o coração começa a ficar cheio de feridas e arranhões. O corpo vai cansando. A mente vai ficando desanimada de ficar pulando de objeto em objeto, na expectativa de que daquela vez as coisas vão se resolver. É aí que o dharma começa a ser entendido. Digo “entendido”, pois é a partir de uma ação do meu intelecto que sou capaz de ver que aquilo não vai resolver meu problema outra vez.

Nunca foi meu estilo “seguir padrões da sociedade ou da moda”, do que quer que fosse. E fui percebendo que essa felicidade ia e vinha, várias vezes. Comecei a observar que tinha algo por detrás disso tudo. A primeira vez que escutei a palavra dharma foi no centro budista que frequentava. Colocavam “Budha, dharma e sanga” como os três pilares do desenvolvimento espiritual. Mas como eu não estudava naquela época, não entendia muito bem o que seria esse dharma. Vivia na ilusão de que sempre podia escolher e que essa escolha era de acordo com a minha vontade. Achava que tinha muitas opções. Porém, na verdade, existe apenas uma opção! Quando vamos nos aprofundando no estudo de Vedanta, reconhecemos que a todo momento a gente está sendo escolhido; como se a vida estivesse se revelando pra gente a cada instante. Isso se fez presente em minha vida em diversos momentos. Muitas vezes, fazia uma escolha buscando uma coisa e quando ia ver, outra coisa se revelava. Quando senti a vontade de me aprofundar em yoga, entrei para o curso de formação esperando fazer a trikonasana bem feita e encostar o umbigo no chão na upavishta konasana. Jamais tinha passado pela minha cabeça dar aula de yoga. No entanto, em cada situação, existe uma coisa que deve ser feita, porque quando a escolha é feita através do dharma, existe uma satisfação como ser humano. Entender essa relação com o universo e com as forças da natureza completa o entendimento do dharma.

Os estudos de Vedanta estão me revelando o ser humano que sou, está me dando conhecimento, me tirando da ignorância. E uma vez que temos esse conhecimento, que entendemos a situação e as outras pessoas, determinadas situações não são mais aceitas. E comigo o dharma foi sendo entendido dessa forma, pelo reconhecimento de que existe uma lei, existe uma maneira de seguir a minha vida e quando eu transgrido esse jeito que eu posso seguir a minha vida, as minhas outras duas buscas, kama e artha, deixam de ter efeito, eu não consigo ter prazer. Ter a consciência do meu papel, do que deve ser feito por mim, me alinhando com tudo a minha volta para uma vida harmônica.

Portanto, o que está disponível pra mim pra ser meu objetivo de vida no mundo? Dentro dessa análise o entendimento do dharma vai aparecer. E quando surge esse entendimento, todas as minhas relações com a natureza, animais, pessoas, minha família, etc. passam a ser harmônicas e passo a viver uma vida dhármica, uma vida correta, em que faço os meus papéis e entendo a todo momento o que deve ser feito por mim, sem o julgamento do que é certo ou errado. A impressão de estar preso por só ter uma opção é falsa. O entendimento do dharma é libertador. A minha satisfação, na verdade, está no dharma. Essa é a descoberta a ser feita.

Esse texto sobre Vedanta foi escrito por Alessandra Monteiro

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Desconstruindo expectativas e padrões mentais

mestre espiritual

Estamos sempre esperando que as coisas venham de fora pra gente. Quanto menos energia dispendermos, melhor. Muito cômoda essa postura, não é?! Da mesma forma, acontece no desenvolvimento espiritual. Criamos expectativas, idealizamos lugares e pessoas, fantasiamos os momentos e as descobertas. Talvez seja uma característica da natureza humana. Como não deixar que essas fantasias tomem a proporção da realidade e tragam consigo frustrações, medo e ilusões? Difícil? Sim, muito! Porém, essas frustrações também fazem parte do caminho. O medo e as ilusões são elementos que permeiam o processo de desenvolvimento espiritual e de autoconhecimento. A sabedoria está no entendimento de que existe algo muito maior por detrás desse véu que encobre o ser divino com objetos e emoções ilusórias. O coração precisa estar aberto para realizar que já somos e que a fantasia nada mais é do que a nossa própria barreira mental embebida no mundo externo.

Nessa caminhada de “desmistificação espiritual”, tive dois grandes mestres espirituais fora da sala de Yoga e de Vedanta. Isso já faz um bom tempo. Nessa época, apesar de não ter praticamente nenhuma ideia sobre espiritualidade, algumas estranhezas me chamavam atenção, começando a me colocar em conflito mental. O primeiro mestre adotava um estilo “carpe diem” e, no seu jeito bem maluquete, desconstruiu em mim a fantasia de um mestre sério e doutrinado. O segundo era um vegetariano bem gordinho e eu não entendia como um vegetariano poderia ser tão gordinho daquele jeito!

Somente anos mais tarde entrei na sala de yoga e outras fantasias começaram a cair. Entre broncas e comportamentos ríspidos nas aulas de ásanas, eu seguia nos suryas tentando classificar o que não precisava ser classificável. Ao mesmo tempo, olhares sinceros e a transmissão de um conhecimento profundo colocavam as barreiras mentais abaixo. A expectativa de um mestre que te pegasse pelas mãos e te levasse por um caminho sem pedras e tropeços tinha sido desconstruída; a expectativa de um mestre que te passasse tudo que ele aprendeu de mãos beijadas e de forma bem mastigada também sumira. Aquela ideia de um mestre que fala manso e sorri pra todo mundo, como se não tivesse conflitos internos, problemas na família e traumas de infância, deu lugar a um entendimento sincero que por detrás do mestre de yoga existia um ser que, como eu, também estava se desenvolvendo espiritualmente.

O coração estava tentando se abrir, porém, não que eu seja teimosa, mas em geral até aquele momento da minha vida, poucas foram as vezes em que estava enganada quanto a classificações e rótulos. Foi por essas e outras, então, que enfrentei dificuldade para aceitar que as minhas expectativas não tinham que ser alcançadas e que os padrões que minha mente havia formulado não eram, necessariamente, verdadeiros. Entretanto, isso não era ruim, pelo contrário, era muito bom! Realizar todas essas desconstruções foi muito importante, pois me permitiu adquirir maturidade. Toda essa ginástica mental conflituosa contribuiu para avançar no entendimento de que a caminhada é individual, de que os aprendizados vêm com o que chamamos de erros, de que ensinamentos precisam de broncas e disciplina, de que sorrisos no rosto não significam um coração bondoso e sincero, e de que, no fundo mesmo, tudo isso faz parte de mim.

Continuando a praticar os suryas, ujayas e vinyasas, eis que me deparo com um mestre de Vedanta que, com a mesma idade do que eu, consegue traduzir os enigmas da mente e os hieróglifos das relações humanas de uma forma tão perfeita, na linguagem dos homens “mortais”. Porque quando se falava em mestre espiritual, imaginava algo inacessível, algo que nunca vai acontecer, algo que só ocorre com pessoas especiais e de preferência bem longe da minha realidade. E, numa simplicidade e clareza que não cabem naquela blusa social lisa ou quadriculada, este menino consegue me mostrar que eu já sou, que não preciso ir a lugar nenhum para ser feliz, que, pelo contrário, o caminho é para dentro e não para fora, que não é necessário se isolar do mundo e das pessoas para se desenvolver espiritualmente e descobrir a pessoa simples e feliz que somos. Vedanta, essa palavrinha simples de 7 letras, veio para desmistificar preconceitos, despir-me diante de mim mesma, me colocando diante daquela que, ao mesmo tempo, mais me alegra e me faz sofrer: eu mesma. E apesar de ser um caminho muito desafiador, posso já afirmar que é também libertador! A alma é livre!

Esse texto sobre Vedanta foi escrito por Alessandra Monteiro

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Se adaptando a nova realidade

gandhi 03

Desde criança, fui acostumada a conviver com os caninos. Diversas gerações de pastor alemão viveram com a gente num sítio em Saquarema, no Rio de Janeiro. Depois veio Théo, um labrador lindo e fofo, que desde pequeno teve que lidar com problemas ósseos. Seus últimos dois anos de vida foram combatendo um osteosarcoma e, apesar disso, sempre foi muito forte e guerreiro. Oito meses depois da morte do Théo, sentindo a falta de um bichano por perto, adotei um vira lata contra a vontade de todos, inclusive do Marcos, com que sou casada e que, inclusive, é igualmente morador do recinto. Lembro-me perfeitamente do momento em que estava na ONG e dentre aqueles diversos cachorros, um veio ao meu colo como que pedindo para levá-lo dali. Já “mal intencionada”, não resisti a olhares carentes e carinhosos. Quando cheguei em casa com o canino, a reação do Marcos foi muito ruim. Ele ficou muito bravo e chateado. E com toda razão. Afinal, ele também era morador da casa e eu tinha que respeitá-lo. Porém, o problema é que ele nunca dissera com firmeza que de jeito nenhum queria morar com um cachorro e, então, a sementinha que havia dentro de mim foi crescendo regada pela esperança de tudo mudar quando o cachorro chegasse.

Fui ignorada e repreendida. Marcos saiu de casa e me deixou ali, no meio de um silêncio ensurdercedor. Resolvi ligar para minha mãe para contar a novidade, com a esperanca de ouvir palavras acolhedoras que suavizassem a minha dor no momento. Doce ilusão. Escutei dos mais variados adjetivos, desde “a sem juizo” até “a maluca”. Disse que eu não sabia o que estava fazendo e que nem pensasse em contar com a ajuda dela. Detalhe que eu nem pedira sua ajuda.
Minha mãe estava muito traumatizada com a experiência que teve com oThéo, pois foi ela quem mais cuidou dele nas piores fases da doença já que era quem tinha mais tempo em casa. Ela desligou o telefone na minha cara e desabei no choro. Gandhi (esse era o nome do dito cujo) me olhava ainda perdido, sem “entender nada”, mas sempre do meu lado, lambendo meu rosto. A dor era mista de arrependimento, solidão e desamparo.

Cheguei a pensar em “devolver” o cachorro, mas algo me dizia que aquilo ia passar. Porém, muitos meses se seguiram aguentando agressões verbais por parte dos meus pais e do Marcos, colocando sempre uma culpa em cima de mim, como sendo a responsável por trazer esse monstrinho pra dentro de casa e por causar todos aqueles problemas. Realmente fui a responsável, mas eles faziam questão de evidenciar isso em diversos momentos. Com a paciência de poucos, fui aguentando e levando a situação. Não pedia ajuda a ninguém e cuidava de tudo do Gandhi sozinha. Estava cansada. Por muito tempo ainda fiquei com esse fantasma de “autora de um grande problema”. Fiquei muito triste e estressada em diversos momentos, até porque não é fácil cuidar de um cachorro filhote e, digamos, bem agitado. Gandhi é da paz, mas tem muita energia! Sentimentos que nunca havia sentido vieram à tona, revelando uma Alessandra que eu ainda não conhecia.

Depois de meses, aos poucos, aquele meu sentimento inicial foi se desenhando. Por diversas vezes, chegava em casa e lá estava Marcos embolado com o Gandhi no chão; minha mãe não se cansava de colocar fotos do Gandhi no facebook, elogiando-o desde lindo e brincalhão, até o novo mascote da família. Hoje as coisas já estão mais calmas e não escuto mais grosserias e broncas por causa do cachorro. Pelo contrário, eu posso dizer que a entrada do canino em minha vida trouxe muitos apectos construtivos, tanto para meu entendimento como ser, como para o relacionamento em casa. Muitos problemas passaram a ficar da porta pra fora e muitos sorrisos e carinhos sinceros apareceram depois que o Gandhi fez parte de nossas vidas.

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